Crônicas

Sesquicentenário da Independência


Nós, brasileiros, já vivemos coisas muito estranhas. Quem não se lembra como, durante o governo Sarney, todos os meses tínhamos que ir ao Correio comprar um selo para colar na janela do carro? Tal selo representava um imposto, e a cada mês tinha cor diferente. Lembro agora do ridículo de todos os nossos carros, com aquela fila de selos coloridos colados na janela da frente, isto sem falar das filas quilométricas, no Correio, para se adquirir o selo ridículo. Na época, o fato foi devidamente ridicularizado na telenovela “Que rei sou eu”, novela na qual os personagens tinham que comprar uns selos para colar nos focinhos dos seus cavalos. Morro de rir quando me lembro. Também sei que repeti, acima, uma porção de vezes, a palavra “ridículo”. Não havia outra que coubesse no seu lugar.
Antes do governo Sarney, porém, vivemos a Ditadura, e ela nos impingiu coisas mais ridículas ainda. Lembram-se do aconteceu em 1972?
Em 1972 fazia cento e cinqüenta anos que D. Pedro I havia proclamado a independência do Brasil. O centenário de tal fato já havia sido devidamente comemorado cinqüenta anos antes, mas o governo da Ditadura estava precisando de algum motivo marcante para fazer o povo vibrar de patriotismo, e não deu outra: resolveu festejar o Sesquicentenário da Independência. Nunca tínhamos ouvido, antes, a palavra sesquicentenário, mas tivemos que embarcar num ano de comemorações em cima da palavra desconhecida, com direito ao Hino do Sesquicentenário e tudo o mais.
Era, aquele, um período tenebroso da História do Brasil. 1968 ainda estava muito perto, e não se possuíam garantias constitucionais. Ridículos monstros, filhos da Ditadura, pontilhavam o País e, como não podia deixar de ser, Blumenau também tinha o seu monstro: chamava-se Coronel Brandão, e levava a Ditadura mais a sério que qualquer outro. A crônica da cidade se lembra perfeitamente de todas as arbitrariedades do Coronel Brandão e nem é bom entrar em detalhes sobre o que dizem os blumenauenses quando se lembram dele.
Para o Coronel Brandão, mais de duas pessoas juntas na rua, à noite, significava a presença de uma célula comunista ambulante, pronta para botar o País em perigo. Os “subversivos”, palavra da moda, eram atentamente vigiados pelo nosso monstro, que atravessava as madrugadas de sexta e de sábado vigiando a saída dos bailes com uma patrulha de soldados, para ver quem se reunia para conversar sobre um complô. É claro que os “subversivos” encontrados eram presos e levados para o quartel do Exército, onde sofriam humilhações, amarguras e, eventualmente, até torturas.
Foi numa dessas madrugadas de 1972 que o meu amigo escritor Célio de Morais saiu, com sua turma, da boate familiar Hum-Papá, ponto alto do encontro da moçada de Blumenau, nessa época. Ninguém estava com vontade de ir para casa, ainda, e sentaram-se todos numa calçada para conversar mais um pouco, coisa proibida pela Ditadura e, principalmente, pelo nosso Coronel Brandão. Ninguém estava botando o País em perigo: falavam de música e de gatinhas, coisa tão a gosto de todos os rapazes do mundo. Só que, minutos depois, quem aponta na esquina? Nada mais nada menos que o Coronel Brandão com sua patrulha!
Claro que os nossos amigos tinham virando subversivos, e iriam passar as próximas horas na cadeia do quartel, se não fosse coisa pior. Fugir, não dava: os soldados armados receberiam ordem de atirar naqueles comunistas que tinham se atrevido a conspirar em plena via pública – ficar seria a maior complicação. Aí Célio teve a idéia, e começou a cantar a plenos pulmões, acompanhado pelo resto da turma:
“Marco extraordinário
Sesquicentenário da Independência!
Potência de amor e paz
Este Brasil faz coisas
Que ninguém imagina que faz...”

Os mais velhos vão lembrar-se da música do Hino do Sesquicentenário. O engraçado da coisa foi que o Coronel Brandão esbarrou na música sagrada da Ditadura para aquele ano, e ficou a prestar continência. E os nossos rapazes cantaram e cantaram, a plenos pulmões, mostrando a sua lealdade à Ditadura, até que o coronel cansou-se e foi embora.
Eles morrem de rir, até hoje, quando contam.

Blumenau 23 de março de 1997.
Urda Alice Klueger



REVIVENDO 2

(Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

Hoje, de novo, saí em busca do passado. Subi a pequena encosta que leva à Igreja Luterana segurando na mão o coração tremeluzente de densa saudade. Estivera lá em cima diversas vezes nas últimas décadas – afinal, sempre alguém se casa, ou morre, ou se batiza, e há os túmulos dos antepassados – mas sempre subi com os olhos e o coração fechados para a emoção, sempre passei de raspão, sem querer olhar, sem querer lembrar – mas hoje fui lá especialmente para ver.
Fiz os cálculos: mais ou menos aqui se estacionava o carro. Ali embaixo era pasto, e quando chovia muito, ficava tudo inundado, e depois vinha o sol e naquela água parada se refletia o azul do céu e as nuvens vogando livres... E veio a lembrança da liberdade ali, lugar onde ninguém passava em dia de trabalho, abrigo certo e perfeito para quem estava tão, mas tão, mas tão apaixonado quanto nós. Era como se a ternura e o carinho não tivessem ido embora e pairassem por ali, em girândolas coloridas, e até agora, tarde da noite, ainda estou em dúvida se as girândolas estavam ou se foi só produto da minha imaginação.
Desviando um pouquinho o olhar, tinha sido o campo de futebol, Palmeiras Esporte Clube, e entre uma coisa e outra, a rua estreita e tortuosa, a única que havia então. Tudo mudou; a rua se multiplicou em diversas pistas lotadas de carros em movimento, e já não há campo de futebol nem nada é mais como foi: a paisagem está suja de uma imensidade de prédios e prediozinhos, um deles de vidros tão espelhados que parece que nem existe, e a gente só o descobre porque espelha aquela paisagem borrada que parece ter nascido do sonho de um pintor louco. Tudo mudou mesmo: coisas como grandes supermercados enchem a base do morro, e a encosta, que tivera elegante fileira de azaleias que juntos vimos florir por toda uma primavera, agora está coalhada por aqueles arbustos e outras coisas, como moitas de taquaras.
Mais uma vez olhei para as árvores: qual delas estivera ali naquela época, qual nascera depois, haveria testemunhas dos tempos que amor tão grande ali vinha se abrigar à sombra da igreja? Uma placa indicou-me duas palmeiras que ali estavam desde o século XIX – portanto, havia testemunhos vivos daqueles tempos tão maravilhosos que até parece que foram só de sonho... Indagava-me que outras plantas de então estariam ainda vivas, e então apareceu o zelador do local e conversei com ele, que sabia com exatidão que aquela árvore tinha 27 anos e coisas assim – pude tirar uma medida de quem ali estivera naquele tempo do nosso tempo e, enquanto conversava com o zelador, cumprimentava silenciosamente as velhas testemunhas daqueles momentos que pensava que estavam perdidos lá no passado.
Foi então... Como então, o sino das seis da tarde começou a tocar, o mesmo sino lá das lonjuras do tempo, aquele sino que anunciava seu carro subindo outro morro para me buscar no serviço, aquele sino que ouvíamos ali... Eu mal podia crer que aquele sino ainda existia e continuava tocando, e cada badalada dele batia na minha alma como uma flecha, e de novo era primavera, as azaleias estavam floridas e você usava aquela camisa de tergal branco e eu podia me abrigar, de novo, junto ao seu peito, e sentir seu aroma bom de limpeza e de Pinho Campos do Jordão, do qual guardo um frasco faz mais de quarenta anos... Então, chorei, mesmo que o zelador achasse estranho. O amor é assim... Não há como explicar...

Blumenau, 10 de janeiro de 2014.

Urda Alice Klueger
Escritora


 

Venha conhecer meu paraíso!!!

Quando eu a reformei e a deixei a meu gosto, fi-lo pensando no que alguém me dissera: “Cuide bem da sua penúltima morada, porque da última os outros cuidarão”. Portanto, fi-la para passar nela o resto da minha vida.

Acontece que depois de poucos anos surgiu no meu horizonte um outro lugar onde acho que vai ser minha penúltima morada, e lá é um paraíso inesperado, lugarejo com quase 300 anos de história, sem hotéis, sem edifícios, sem pousadas, com sua igrejinha mui antiga, pescadores, maricultores, bichos-grilos e outros habitantes que, como eu, acabam por voltar às origens do mar (um dia todos nós saímos do mar!) para viver a intensidade das últimas décadas, sabe-se lá se não a intensidade de só alguns anos que devem ser muito bem vividos! Esse paraíso está a apenas 10 minutos do centro de uma cidade de 200.000 habitantes, com tudo o que gente velha precisa: médicos, bancos, etc. Portanto, já deixo explicado o porquê de estar querendo abandonar este pequeno paraíso que estou querendo vender e, que para começo de conversa, está completamente livre de enchente, barranco ou ribeirão, coisa que já o torna MUITO atraente, em se tratando da cidade de Blumenau/SC, lugar dado a tantos desastres naturais.

Qualquer construção poderia estar em tal lugar privilegiado, no entanto, mas nenhuma, claro, seria como a minha casinha branca e rosa, que tem na porta o anúncio de que ali mora um cão feliz, e embora não haja anúncio, também ali mora uma gata muito dengosa e caçadora, afeita a vir do mato dos fundos com ratos de diversos tamanhos carregados na boca, e que são devidamente devorados na garagem para dois carros.

Esta minha casinha é encostada em outra, que é encostada em outra, e depois outra e outra, e elas formam como que uma muralha fechada por um portão que se abre com controle remoto e onde só entra quem mora no pequeno moderno burgo ou quem é convidado de algum dos moradores, coisa muito segura, onde a gente compartilha um jardim comunitário, um salãozinho de festas e um parquinho de diversões com quadra de macia areia, onde crianças muito educadas jogam futebol ou vôlei nos finais das tardes, maravilhosas crianças que jamais ultrapassam o portão da gente sem pedirem licença e que no dia primeiro de dezembro já estão de férias, pois, de tão estudiosas, passam todas sem exame. Fico fascinada com alguns meninos que são mais meus amigos que os outros, e que tudo manjam de mapas, de geografia e de história! Não é em qualquer lugar que se encontram vizinhos assim, nem meninas pequenas que leem poesia e uma há que até está a escrever um livro, apesar dos seus oito anos!

Minha casinha se separa da ruazinha onde está por uma cerquinha branca, e tem um pequeno jardim de grama pelo de urso, com um pé de lindas flores amarelas e outro de boldo, pois dou chá de boldo para minha gatinha, quando ela come ratos demasiados, para que melhore do estômago.

Do lado do jardim, há a varanda que me serve de sala de visitas quando chegam as pessoas do coração, com suas cadeiras brancas e sua mesa branca com toalha de renda, e onde posso trabalhar com um lap-top. As crianças das casas vizinhas costumam vir até à cerca da minha varanda para me contar seus sonhos e seus sucessos – é muito lindo saber da imaginação que há dentro de cada uma!

Depois vem a sala, como em todas as casas, para as visitas mais de cerimômia ou para os dias frios. Na verdade, esse andar inteiro mede 100 m2, e são três quartos luminosos, dois banheiros onde o vento das manhãs seca as toalhas de banho em qualquer estação, a sala de jantar, a cozinha e área de serviço. O arquiteto que fez a reforma para mim disse que hoje se constroem apartamentos de três quartos em apenas 50 m2 – nem consigo imaginar tal coisa!

Pois é, daria para uma família média morar confortavelmente só nesse piso – não há muito terreno atrás, coisa só de um metro e meio, mas como a floresta contígua é área de preservação permanente (há uma nascente em algum ponto, lá dentro da mata - Floresta Atlântica legítima, se desdobrando em quadras e quadras, a partir dali, e virando todo um morro até o outro lado), é como se o terreno nunca acabasse.

Não é só isso a casa, porém! Da sala de jantar, toda branca e rosa, passando por uma escada de canela preta de oitenta anos de uso, salva de uma demolição (como aquelas escadas de filme – ou da casa da vovó), vai-se ao outro piso, e lá são mais setenta metros quadrados de área, com os fundos em vidro, para que melhor se possa observar atentamente as cotias, os macaquinhos, os tucanos de longos bicos, as inúmeras outras aves – bichos mais simples, como gambás e lagartos, a gente nem conta. Como era para ser minha penúltima morada, tomei cuidado com a segurança, coloquei extensa grade de ferro protegendo aquele vidro todo (pelo lado de fora) e cuidei para pintar a grade de verde escuro, para que não aparecesse diante da floresta. Aliás, é bom lembrar que todas as entradas da casa estão devidamente gradeadas em ferro, evitando qualquer susto futuro.

Setenta metros quadrados é um bocado de metro – em tal espaço também existe o espaço para secar roupa, genialmente criado pelo arquiteto que ali trabalhou, e um banheiro rosa e branco, onde, vez ou outra, quando desço as escadas em silêncio, pego alguma fadinha tomando banho, com a água do chuveiro batendo em suas asinhas translúcidas – são fadinhas muito tímidas, costumam fugir para a floresta quando são percebidas. Mas é uma paixão encontrar alguma delas ali!

Ah! E não posso esquecer a janelinha feita para o meu cachorro, ao rés-do-chão, com sua varandinha gradeada e seu telhadinho, onde ele se refestela a espiar e acoar os animaizinhos da mata.

Nesse grande espaço do outro piso eu fiz uma biblioteca, um escritório – pensava em melhorar mais, fazer uma sala alcatifada para a música e a leitura – adoraria que quem comprasse a casa utilizasse tal área para algo ligado à Arte, mas sabe como é, lá se pode fazer praticamente qualquer coisa.

Não posso esquecer que minha casinha rosa e branca tem um ponto central de luz, um espaço dentro dela, coberto por uma claraboia translúcida, que a ilumina toda por dentro. Nas horas do meio do dia, a luz do sol a alcança em todos os níveis – e também não dá para esquecer que ela possui a possibilidade de se fazer ainda mais um piso, como alguns vizinhos já fizeram... e nem dá para esquecer das manhãs em que acordo e há quatro tucanos pousados na janela da cozinha...

Quem quer comprar? Eu estou querendo ir lá para a beira do grande mar-oceano...

Blumenau, 30 de abril de 2013.

 

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.

Contatos: urda@flynet.com.br - nisael12@yahoo.com.br - Fone 47-9982 4098 – 3322 8051 (Nisael)



As Velhas Páscoas


Fico entristecida quando vejo o que a sociedade de consumo fez com a Páscoa: para a maioria das pessoas. Hoje, Páscoa significa ir aos supermercados disputar ovos de chocolate anunciados como os mais baratos do Brasil, muitas vezes levando junto as crianças para que elas próprias escolham sua marca preferida. A magia e o encanto da Páscoa se dissiparam paulatinamente com o avanço do progresso, e eu tenho uma saudade imensa daquelas maravilhosas Páscoas da minha infância, tanta saudade que vou contar como eram.
Na verdade, a Páscoa começava muitos meses antes, quanto, em cada casa, as mães quebravam cuidadosamente só a pontinha de cada ovo usado, para guardar as casquinhas vazias. Elas eram lavadas, secas e armazenadas, e só de olhá-las já se criava uma expectativa a respeito da Páscoa.
Ainda antes da Semana Santa já se começava a preparar a Páscoa. Cada casquinha era decorada, e as formas eram muitas. Podia-se pintá-las com tinta a óleo ou outras tintas apropriadas que existiam, que lhes davam lindas cores vivas, ou podia-se decorá-las com tiras e tiras de papel de seda ou crepom picotados, que as deixavam com uma cara de gostosas! Essas eram as formas mais fáceis de decorar casquinhas – havia outras, é claro, mais sofisticadas, e resquícios delas ainda aparecem nas lojas especializadas nesta época do ano. Paralelamente à confecção das casquinhas, se faziam as cestas, usando papelão e muito papel colorido picotado e encrespado, serviço para noites e noites à volta do rádio. Algumas crianças tinham a felicidade de possuir cestinhas de vime, que eram reaproveitadas a cada ano.
Era necessário, também, preparar o amendoim, que a gente comprava com casca, descascava, torrava, tirava as pelezinhas, para depois a mãe da gente confeitá-lo com calda de açúcar, ato que por si só já gerava uma grande magia, com a criançada toda em torno do fogão prendendo a respiração para ver se a calda “dava ponto”. Depois era hora de encher as casquinhas, e fechá-las com estrelinhas de papel coladas com cola de trigo. De noite, misteriosamente, tudo sumia: o Coelho levava as guloseimas e as cestinhas embora para sua toca.
Faziam-se, também, os ovos cozidos pascoais. Colava-se folhinhas de avenca, de rosa, etc (com clara de ovo) em ovos frescos, os quais eram amarrados dentro de trouxinhas de pano e depois cozidos em águas com plantas que lhes davam cor. Marcela, casca seca de cebola e capim melado produziam ovos de três tons de amarelo; a batata de cebolinha vermelha produzia ovos vermelhos. Depois do cozimento, tirava-se a trouxinha e as folhas, e se obtinha belos ovos decorados para serem comidos no café da manhã de Páscoa.
Ah! A manhã de Páscoa! Na véspera, as crianças tinham feito seus ninhos, com palha ou capim, ninhos enfeitados com pétalas de flores e papel colorido picado, escondido no jardim. O despertar na manhã de Páscoa era uma loucura: corria-se para fora de casa ainda de camisola, a procurar o que o Coelho deixara. No ninho sempre havia alguma coisa, mas havia coisas também, escondidas em todos os cantos possíveis. Acontecia de a cesta da gente estar escondida dentro do galinheiro (todos tinham galinheiros nessa época), e aí havia outra surpresa: as galinhas brancas estavam azuis, ou verdes, resultado de paciente trabalho dos pais, durante a noite, que lhes pintara as penas com anilina. Nós não tínhamos vacas, mas nas casas onde as havia, as partes brancas do pêlo delas também eram coloridas com anilina, e tudo aquilo criava um encanto muito grande nas nossas mentes infantis. Era um ser maravilhoso, esse Coelho!
Nas manhãs já frias de Abril, voltávamos para casa com as cestas cheias de casquinhas e alguns espetaculares chocolates (chocolate, na época em que eu cresci, só era comido no Natal e na Páscoa), que eram contados e divididos igualmente entre todas as crianças. Ia-se à Igreja, a seguir, à missa das nove, e o ar fino e já frio de Abril estava totalmente impregnado de uma profunda magia, e a gente não via a hora de voltar para casa para começar a comer as guloseimas! Primos vinham brincar, nestas tardes de um tempo em que a Páscoa era tão maravilhosa, e a gente criava cenários fantásticos nos gramados verdes, onde os coelhinhos de chocolates e os ovos eram personagens.
Ah! Que pena que o espaço está acabando! Quanto, quanto ainda queira falar sobre as antigas Páscoas! Mas acho que já deu para dar uma idéia de que elas eram muito diferentes da Páscoa que a sociedade de consumo criou: qual é a graça de levar as crianças aos supermercados para escolher seu tipo de ovo preferido? Onde ficou a magia da espera e do Coelho?


Blumenau, 24 de Março de 1996

Urda Alice Kluege
Escritora




O HOMEM DE SANTA HELENA DE UAIRÉN

(Para Hugo Chávez Frías)


Era dia de tomar o rumo do Brasil. Na boca da noite, dirigi-me à rodoviária de Ciudad Bolívar, onde tantas coisas tinham acontecido! Sentei-me a um banco com minha mochila e uma sacola xadrez cheia de livros daquele país maravilhoso, e logo um jovem casal me sorriu com a simpatia tão própria das gentes da Venezuela.
Ambos, mais um filhinho muito lindo, eram assim como eu tinha me acostumado a ver a gente de lá: morenos, talvez mestiços, naquela tão fácil mestiçagem altamente democrática que aconteceu na Venezuela ao longo da sua história. Chamava a atenção os luzidios cabelos negros escorridos da mulher, cuidadosamente presos num rabo de cavalo. Ela estava pela metade de uma gravidez, penso, e usava um lindo vestido de laise creme – o conjunto dela, do marido e do filhinho era muito bonito; lembrava gente simples, próspera e culta, talvez agricultores, mas haveria agricultores naquela terra tão fértil por onde viajei de ônibus durante toda a claridade de um dia, sem ver uma roça, uma vaca? Haveria agricultores num país onde poderia faltar o leite para o café da manhã, caso o avião dos EUA não chegasse a tempo? Até a alface vinha dos EUA, de avião...
Num instante estávamos conversando. Já se passaram mais de sete anos, não recordo mais dos seus nomes, mas eles eram índios. Estava encantada com eles, queria saber de onde eram.
- Depois de Santa Helena do Uairén, viajamos mais quatro horas até chegar à nossa tribo.
Céus, isso era muito longe! Santa Helena de Uairén era a cidadezinha quase na fronteira do Brasil, pequenina, quase que um posto avançado da Venezuela – quatro horas de viagem dali em diante era longe mesmo!
- Eu estou fazendo a Faculdade de Multiculturalismo – explicou-me o homem – Agora, lá na nossa tribo, a gente pode fazer faculdade. Agora se estuda em todos os lugares – ele sorriu, compreensivo, pois decerto eu fizera alguma cara de espanto:
- Assim que a minha mulher tiver o bebê, ela também vai estudar Multiculturalismo!
Naquele momento, todos estudavam na Venezuela - quem fora analfabeto andava entrando no ensino secundário; quem já fizera o primário estava a chegar nas universidades. Os investimentos em saúde e educação eram impressionantes – só não imaginava que os índios quatro horas depois de Santa Helena de Uairén estavam a estudar Multiculturalismo, tão importante curso num país tão mestiço quanto aquele!
- E antes, como era? – eu queria saber tudo.
- Antes do Comandante, éramos índios abandonados. Se não fosse o Comandante...
Viajamos por toda a noite no mesmo ônibus, e de manhãzinha chegamos à Santa Helena. Mais 15 km e eu estaria no Brasil – mais quatro horas e meus amigos estariam na tribo onde se estudava Multiculturalismo. Despedi-me daquela família cheia de dignidade que um dia se limitara a sofrer as humilhações que sofrem a maioria dos pobres e que agora se instruía lá na sua terra de uma forma que nunca sonhara.
Comandante Hugo Chávez, obrigada por mais aquela belíssima surpresa dentre tantas outras naquelas semanas de Venezuela! Nunca mais ninguém poderá pisar naquele homem que morava a quatro horas de Santa Helena de Uairén, agora que ele está armado com as fascinantes armas do Conhecimento! Ah! Comandante, Comandante, por que te foste tão cedo?
Choro.

Blumenau, 13 de março de 2013.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR




O HOMEM DE CIUDAD BOLÍVAR
(Para o homem da rodoviária de Ciudad Bolívar e para Hugo Chávez Frías)


Mais ou menos dez da noite, e eu chegara à Ciudad Bolívar, interior da Venezuela, cansada, com fome e muitíssimo curiosa para saber o que pensavam as gentes de uma cidade de 100.000 habitantes, depois de uma semana ouvindo as gentes de Caracas, cidade grande.
Sentei-me à mesa de plástico de um vendedor de sanduíches e pedi algo para comer. Os venezuelanos são muito simpáticos, e logo eu estava em animada conversa com aquele vendedor de sanduíches.
- Primeiro, eu nunca tinha votado – explicou-me ele. Há que se lembrar que na Venezuela o voto não é obrigatório. Meu novo amigo apontou-me uma praça próxima:
- Agora, não perco uma eleição. Agora todos votam. Está vendo aquela praça ali? Há tanta gente que vota que aquela praça fica tomada por uma fila que vai de lá até aqui, ó! – continuou, mostrando o tamanho considerável da fila que revia na sua imaginação, e que enfrentava a cada vez que havia eleições e referendos.
Era verdadeiramente impressionante o tamanho da fila que meu novo amigo me contava, como era impressionante no seu olhar, no seu rosto e na sua postura, o orgulho de se saber e se sentir cidadão, após a miserabilidade de uma vida que eu diria de escravidão, já que nos mais de sessenta anos anteriores só eram cidadãos e quase que só votavam os milionários donos do petróleo – pelo menos eram eles quem davam todas as cartas e aplicavam todo o dinheiro gerado pelo subsolo venezuelano nas suas fortunas de Miami e tinham abandonado seu povo à própria sorte, como eu já pudera ver sobejamente na Caracas rodeada de cerros onde até pouco campeava a mais absoluta miséria e abandono.
- E o Comandante? – fiz uma pergunta que poderia ser tudo ou nada.
O rosto do homem se abriu num largo sorriso de prazer, como também se abriam os rostos das gentes de Caracas.
- Ah! Nós amamos o Comandante! Não havia nenhuma esperança nas nossas vidas antes do Comandante. Agora passamos a ser gente livre, agora podemos decidir nosso futuro! – e o meu amigo passou a contar das diferenças na sua vida, de como voltara a estudar, de como agora ele e sua família tinham acesso a médico a qualquer momento, de como os remédios eram gratuitos, de como a comida era subsidiada pelo dinheiro do petróleo que agora não vazava mais todo para Miami , de como até pudera abrir seu pequeno negócio de sanduíches.
- Antes a gente não podia nada, além de ser pobre e sofrer. Se não fosse o Comandante, o que seria de nós?
Isto foi em janeiro de 2006, e como hoje é 06 de março de 2013, lá já se foram sete anos. Eu sei que aquele homem de Ciudad Bolívar deve estar chorando, e queria estar lá para dar um abraço nele, porque também estou chorando aqui. Chávez se foi ontem, mas nunca mais deixará de estar conosco. Luminosa estrela no meu céu, eu lhe digo:
- Até a vitória sempre, Comandante! – e de novo choro, pois o mundo já não é igual desde ontem, quando te foste tão prematuramente. O que me consola são todas as sementes que plantaste, tantas que a gente ainda nem sabe avaliar como germinarão por todos os lados. Há que chorar, no entanto, porque o coração dói.


Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR
Blumenau, 06.03.2013



Assunción nas garras do Condor


Publicado em 24/06/2012 por Urda Alice Klueger*

Lembro perfeitamente daquele dia em que Fátima Bernardes olhou soturnamente para a câmara e disse, na sua melhor voz de velório: “Hoje faz quatro meses que começou o escândalo do mensalão!” Penso que em seguida ela deve ter tido um orgasmo, depois daqueles quatro meses conseguindo levar o povo de cabresto, quase todo o país de olhos, narizes e emoções concentrados em Brasília e no Jornal Nacional, sem a menor chance de conseguir olhar para nada que se passasse um pouco além das nossas fronteiras.

Este é um dos grandes males de nosostros, brasileños: para a esmagadora maioria da nossa população, o mundo começa e acaba em Brasília, e o que acontecer além de Brasília não existe, o que quer dizer que coisas assim também não existam em outros países – vi um livro didático do Canadá que dava vontade de chorar: as crianças das escolas canadenses descobrem que há o Canadá – ao redor existem animais selvagens e alguns poucos homens ”selvagens” – portanto, para elas, nosostros sequer existimos.
Portanto, lá no começo do milênio ficamos quatro meses tão fascinados pelo escândalo do mensalão que sequer nos demos conta do que ele queria esconder: no nosso vizinho tão próximo, encostadinho, o Paraguai, naqueles quatro meses foram aprovadas leis que permitiam a instalação de uma base estadunidense naquele país, que concordavam que os soldados estadunidenses podiam roubar, matar, estuprar, torturar, em território paraguaio, sem sofrer sanções – e naqueles quatro meses a tal base foi devidamente instalada em Mariscal Estigarribia, norte do Paraguai - pertinho pertinho do Brasil. Tem lá um aeroporto IMENSO (4.000 m de pista – 3,85 m de espessura, em concreto), capaz de receber todo o tipo de aeronave e eu fui lá vi tudo isso com estes olhos que a terra há de comer, e meu amigo que estava junto até tirou fotos de tudo!
Portanto, a qualquer momento qualquer aeronave pode subir, lá, e encher de bombas lugares como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília ou Porto Alegre, sem contar que fica facilzinho facilzinho bombardear, também, lugares como La Paz, Caracas ou Buenos Aires.
E nós, aqui, bobos, a gemer de raiva orquestrados pela voz melíflua e fúnebre de Fátima Bernandes, sem dar a mínima para o que acontecia do lado de lá da fronteira. Alguém importante deve ter dado os parabéns à Fátima Bernardes, elogiado sua atuação ao fazer um país inteiro ficar surdo e mudo para o mundo por conta do fascínio dela, enquanto se armava a grande arapuca para a nossa área!
(Em tempo: acabo de consultar São Google, e lá tem de tudo sobre a tal base e o aeroporto – embora também tenha gente lá dizendo que é tudo mentira. Mas que vi, vi, e, inclusive, junto com outros passageiros de um ônibus, fui bastante humilhada pelos tais soldados estadunidenses numa estrada ao norte do Paraguai, ali por perto.)
Então, agora, andava me coçando: o que é que estava acontecendo, DE VERDADE, por detrás do caso Cachoeira, que há meses mantém, de novo, os brasileiros de cabresto, a olhar para Brasília? Algo havia que ter, e coisa séria – cheguei a comentar tal coisa com algumas pessoas. Procurava ver, mas não clareava – mas para o público do Jornal Nacional estar tão fascinado pelo Cachoeira que acho que já nem se importa mais com futebol, coisa grossa estava à vista, mas eu ainda não conseguia enxergar.
Ontem, então, a coisa ficou clara, claríssima: num sórdido golpe de estado que eu assisti passo a passo via Telesur (facilzinho de pegar via Internet: clicar señal en vivo), o presidente Lugo, do Paraguai, foi deposto pelo Congresso daquele país, e um títere foi colocado no seu lugar. Lugo acatou, saiu – não quis ver sangue inocente derramado nas praças de Assunción, aquela cidade tão linda e tão querida, que é um bálsamo para o meu coração e um tesouro na minha vida , impedindo, assim, o massacre de milhares de pessoas que já lá estavam para defender a legalidade da democracia e que já estavam levando bala de borracha e gás lacrimogêneo.
O Condor volta a voar nas Américas. Faz três anos devorou Honduras; agora, foi a vez do Paraguai – amanhã ou depois será a nossa vez.
Se você ainda não sabe o que é a Operação Condor, sugiro que se informe, pois muito sangue e muita lágrima já correu aqui na nossa Terra de Santa Cruz e em outros lugares por causa dela, e parece que tudo se repete.
Com São Google, hoje, não há como se manter ignorante de coisas assim, das quais depende o nosso futuro. E quando o Jornal Nacional começar a falar demais no mesmo assunto, ligue as antenas: alguma maldade MUUUUITO maior está para acontecer.
Aqui, choro, como chorei tanto ontem, pelo nosso irmão Paraguai que está tão dentro do meu coração. Assunción, a linda e a doce, onde estão as flores das árvores pejadas de História das tuas praças? Ainda haverá primavera para ti, minha querida Assunción, ou só te restará ser o ninho podre daquele Condor de voos baixos e rasantes, ao contrário dos livres voos dos condores das altas montanhas?

Ah! Assunción, minha querida, fico aqui torcendo pela tua primavera. Ao se despedir, ontem, Lugo disse que o povo era forte, forte, forte... Quem sabe possa voltar a primavera? Por enquanto, é tempo de chorar, e choro.

Blumenau, 23 de Junho de 2012.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia na UFPR.

 



CENTELHAS DE VIDA

Era uma vez, lá no Paraíso Terrestre, quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais, criou Ele, também, um casal de cachorrinhos. Viviam todos, lá, muito felizes, e se não fosse a preocupação de Eva e Adão de provarem dos frutos da Árvore do Bem e do Mal, a festa lá ainda não teria acabado, e ninguém passaria nenhum tipo de privação neste mundo.
Bem, o fato é que lá, junto com Adão e Eva, havia um casal de cachorrinhos, e que enquanto Eva era tentada pela Serpente, os cachorrinhos, muito naturalmente, tiveram seus primeiros filhotes, que tiveram outros filhotes, que tiveram outros filhotes, até que um dia, milhares de anos depois, nasceram os dois cachorrinhos que vivem na rua do lado da minha casa.
Eu comecei a vê-los no começo deste inverno que está tão frio: dois cachorrinhos amarelos, dos mais legítimos vira-latas, a saírem para a entrada da rua, bem na minha esquina, para ficarem ao sol que chega antes na esquina do que na casa deles. Pequenas centelhas de vida explodindo de inteligência e alegria, eles sabem exatamente a hora em que o sol chega a um pedaço quadrado de asfalto na saída da rua, e lá vêm, lépidos e alegres, a balançarem seus rabinhos na efusão gratuita de viver, para aproveitarem o calor fraco do sol e se aquecerem.
Como se divertem os dois bichinhos! Eles ainda são cachorrinhos muito novos, mal e mal deixaram de ser bebês, e a idade adulta deve vir só lá pelo verão. Estão naquela fase em que os cachorrinhos gostam de roer os chinelos das pessoas, e onde a alegria é infinita dentro dos corpinhos peludos e inquietos de tanta vida. Naquele quadrado de sol da esquina da minha rua, eles se aquecem com os focinhos erguidos, e brincam, alternadamente, brincam um com o outro tendo a certeza de que a coisa mais importante deste mundo é brincar. Eles conhecem todas as crianças da redondeza, e todas as crianças os conhecem – quando elas passam, cedinho, em direção da escola, eles interrompem suas brincadeiras para fazerem festa às crianças, e acompanham-nas um bom estirão pelas calçadas, até lembrarem-se que têm seu quadrado de sol no mundo, e voltarem à minha esquina.
Conhecem gente grande também: recentemente, quis saber mais sobre eles. Minha amiga Margarida contou-me que se chamam Toco e Bilú, e Margarida é uma mulher séria, tesoureira de um banco, o tipo de pessoa que a gente não pensa que sabe o nome de dois cachorrinhos de nada, duas centelhazinhas de vida que surgiram no começo do inverno num quadrado de sol. Depois que Margarida contou-me até o nome deles é que vi o quanto estão populares em toda a vizinhança.
Sabedora, agora, dos seus nomes, ontem de manhã fui lá falar com eles. O dia estava nublado, e o pedaço de sol não tinha aparecido na esquina. Os cachorrinhos, porém, sabiam perfeitamente onde ele iria surgir, se surgisse, estavam lá sentados,com cara de aborrecidos pela falta daquele amigo Sol que os tem aquecido desde que se lembram, na sua curta vida. Eles ainda não me conheciam – sempre os observo de longe, de dentro da garagem – e se mostraram indiferentes até que chamei:
– Toco!
Na hora descobri quem era Toco, pois ele veio pular em mim arrebentando de alegria, e foi só chamar “Bilú”, para que Bilú também entrasse num paroxismo de prazer e de pulos, ambos inteiramente cônscios da sua identidade neste mundo. Nasceram faz pouco tempo: da vida só conhecem o quadrado de sol e as crianças que passam, mas sabem muito bem como cada um se chama, e como ficam gratuitamente felizes quando um adulto se digna dar-lhe o pequeno nome que é quase tudo o que possuem!
Eles pularam e me lamberam até que eu tive de ir-me. Pelo retrovisor do carro, fiquei vendo como, depois da alegria de terem sido reconhecidos por um adulto, esqueceram-se de que o quadrado de sol não tinha vindo, naquele dia, e passaram a brincar com a mesma alegria de quando se sentiam aquecidos!
Se Adão e Eva não tivessem acabado comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal, cachorrinhos como Toco e Bilú nunca sentiriam frio, e nunca precisariam ficar brincando num quadrado de sol na esquina de uma rua, e não haveria na minha vida a luz das suas pequenas centelhas de vida. Até que Adão e Eva não erraram de todo!
Blumenau, 04 de agosto de 1996.
Urda Alice Klueger


A NAVE DOS INOCENTES

A estrada era de barro e de pedra e de pó, mas tudo isso desaparecia numa baixa nuvem de bruma, bem rasinha com o chão, a ponto de a gente se esquecer de pensar se os velhos pneus da Kombi iriam resistir aos pedregulhos pontudos ou não – na Kombi velha, que já deveria estar aposentada se cá não fosse o mais legítimo terceiro mundo (e está cheinho de gente que acha que o Sul é diferente, pitéu de primeiro mundo), um bando de pequenos anjos como que agitavam suas tênues asas em forma de sorrisos, e ao olhar para eles, quem é que ainda ia pensar em coisas como pneus e pedregulhos?
Ela viajava adiante do carro aonde eu estava, a Nave dos Inocentes, e apesar de ser mais de três horas da madrugada e da estrada inóspita, cada pequeno anjo daqueles sorria e abanava para nós, e a Kombi tinha as luzes internas acesas, decerto para que nenhum anjinho chegasse a sentir medo, e eles eram tantos, mas tantos, que não sei como cabiam todos ali, meninos e meninas de 3, de 4, de 6 anos, talvez, anjinhos com carinhas caboclas, com carinhas italianas, com carinhas alemãs, verdadeiros anjinhos brasileiros flutuando na névoa dentro daquela Nave que os levava em direção do Futuro, e sua alegria e farra eram coisas impressionantes! No carro onde eu viajava alguém lembrou que se tratavam de anjinhos que raras vezes andavam de carro, que decerto dali vinha sua alegria – e nós abanávamos e eles nos abanavam e riam, e aquela Nave dos Inocentes era como que uma coisa irreal a flutuar na noite, como se fosse um sonho lindo que alguém estivesse tendo, e na verdade, era um Sonho.
Quando eu contar qual era o Sonho, diversos leitores não vai mais querer ler o resto da crônica, mas, vá lá: eu seguia a Nave dos Inocentes, e nos dirigíamos todos, num comboio que só aumentava, em direção de uma das fazendas de terras arrasadas (há fotos para comprovar o arrasamento das terras) que fazia parte do maior latifúndio do meu Estado, para ocupá-lo. E, diante de nós, como numa irrealidade, a Nave dos Inocentes navegava em direção ao Sonho e ao Futuro.
Andei quebrando um braço e ele ainda não está bem bom; assim, sabia que apesar de estar fazendo parte de uma equipe de apoio, pouco poderia ajudar a carregar e fazer outras coisas para aquelas 500 famílias que seguiam para a ocupação. Então pensei nos anjinhos que abanavam na velha Kombi – e se, na hora em que a Kombi parasse, seus pais não estivessem a postos? Quatro horas da manhã é um horário muito tardio para meninos e meninas tão pequenos estarem naquela farra toda – havia que se pensar no que aconteceria se algum sobrasse na Nave. E já que estava sem muita força física, pensei em usar a força do coração, e ficar de guarda para quando a Nave dos Inocentes parasse, amparar junto ao peito algum anjinho que começasse a chorar. E foi o que fiz.
Assim que chegamos à área que estava sendo ocupada, tratei de sair do carro onde estava e ir ver o que acontecia na Kombi. Como eu, um magote de adultos seguiu para a mesma porta, e todos eram casais, e muitos tinham bebezinhos ao colo, e quase todos eram feios, mal-vestidos, judiados pela vida, envelhecidos prematuramente, sem nada de seu além daquelas crianças que começaram a sair da Nave. E então eles gritavam coisas assim:
- Segura na mão do Luizinho, e tu na mão do Antonio, não se soltem!
E cada casal arrebanhava alguns anjinhos, às vezes três, às vezes quatro, e os colocavam numa enfiada de mãos dadas, preciosos colares de crianças que eram as suas jóias mais preciosas, as únicas jóias das suas vidas sofridas. Em coisa de um instante a Nave dos Inocentes estava vazia – não sobrara nenhum anjinho para eu acalentar junto ao coração. E então eu soube que aquela gente jamais sairia dali a não ser por algum acordo feito por um bom juiz; que não haveria soldado, cachorro ou canhão que enfrentasse gente que tinha colares de tais preciosidades, gente determinada a tudo para garantir as suas jóias.

Blumenau,20 de abril de 2004.


Natal no cinema
(Para Mara Salla)

E então, num dia em que já não sei de que mês era, Papai Noel surgiu na minha vida de forma totalmente inesperada: parecia-se com uma alta e jovem gaúcha[1] que se dizia nascida numa cidade chamada Arvorezinha – pensava ele que eu acreditei! Sei muito bem que ele vem lá do Pólo Norte! Nesse disfarce, Papai Noel disse chamar-se Mara Salla – como há a gente de saber quantos são os disfarces que aquele Ser Encantado usa! Mas já que era assim que ele tinha se apresentado, fiz de conta que acreditei, e então, para facilitar, vou ficar a chamar de Mara Salla àquela representação de Natal que tão magicamente surgira na minha vida! Pois que queria Mara Salla comigo?
Ah! Gente, coisas assim só acontecem em tempo de Natal, mesmo – o que significa que o tempo de Natal é um tempo que pode ser em qualquer dia, desde que a gente queira com muita força e continue acreditando em Papai Noel! Pois tem gente que basta crescer um pouquinho, passar dos dez anos, que já fica achando que Natal e assemelhados não passam de invenção, e acaba perdendo um monte de coisas mágicas na vida! Eu, cá da minha parte, jamais deixei de acreditar – e então, as coisas mágicas sempre continuam acontecendo.
E então Mara Salla primeiro escreveu para mim, e depois, um dia, veio me visitar, e que queria ela? Ela era cineasta, e queria usar um texto meu (que está neste livro[2]), chamado “Por causa do Papai Noel”, para fazer um filme. Como é que a gente não vai concordar com uma coisa assim? Fiquei toda faceira, toda boba com aquela escolha de Papai Noel, e passaram-se tempos, meses, penso que quase dois anos, e um dia fui a um cartório, em Florianópolis, para doar a Mara Salla o direito de escrever um roteiro a partir do meu texto – mas sabe como são estas coisas de Papai Noel, não? São todas mágicas e misteriosas, e como já faz tempo que eu cresci, acabei ficando mais paciente, também, e o tempo que passava não tinha importância para mim – um dia o filme sairia, e decerto seria LINDO!
Outras coisas, porém, saíram antes do filme: Mara Salla mandou seu roteiro para o Ministério da Cultura, e ele concorreu lá entre os melhores roteiros do Brasil, e sabe como é, aquela gente que trabalha com um Ministro com a sensibilidade de um Gilberto Gil não é boba, não – sacou logo que ali tinha o dedo de Papai Noel, e o roteiro de “Por causa de Papai Noel” ganhou o primeiro lugar nacional! Só aquilo já era maravilhoso – mais maravilhoso ainda foi quando o filme começou a ser rodado de verdade, tendo como cenário a pequenina cidade de São Pedro de Alcântara/SC/Brasil, e eu passei quatro dias lá vendo como é que se fazia um filme, e acabei até fazendo uma ponta nele – coisa de nada, dez segundos, mas que me deram o maior cansaço! – e saí de lá convicta que a melhor profissão do mundo era a de escritora, depois de ver o trabalhão que era fazer cinema!
E de novo o tempo passou, e havia muitas coisas a serem feitas no filme, como trilha sonora, animações e essas coisas das quais não manjo nada. Ainda antes do lançamento oficial, o filme já começou a concorrer em festivais e a ganhar prêmios – e todo o mundo pensava que estava a dar prêmios para o filme de uma cineasta chamada Mara Salla, sem nem se tocar que por detrás de tudo havia a presença e a magia de Papai Noel!
Então, no dia 18 de Dezembro de 2006, acabou havendo o lançamento oficial do filme. Foi lá em Florianópolis, e eu fui com a minha amiga Dina, com o meu afilhado Alexander e com a minha prima Mayde. Pensava que era como ir ver um filme qualquer, feito por um cineasta qualquer – na hora, mesmo, não estava me lembrando de que Papai Noel estava por detrás de tudo! E então foi um choque de grandes emoções dentro de mim, quando fui vendo a beleza do filme, e a forma como Papai Noel – quer dizer, Mara Salla – conseguira entender uma coisa que eu achava que só os escritores sabiam, que só eles entendiam – como era possível viver-se, ao mesmo tempo, diversas realidades – já falei com outros escritores, inclusive o Grande Mestre Jorge Amado, que concordaram comigo – de que de repente, dentro da vida real que a gente está vivendo, surgem personagens fictícios vivendo outras realidades, e que eles passam a fazer parte da vida da gente como se gente de verdade fossem. Pois Mara Salla entendera tal coisa e a transportara para o filme (afinal, Papai Noel tudo pode, não?), e conforme via o mesmo, assolou-me tal sensibilidade por conta dele, que já não era possível sobreviver sem chorar – e quando as luzes, afinal, foram acesas, eu me acabei de soluçar nos braços da minha prima Mayde, aconchegantes braços acostumados a carregar crianças e a entender de Natal.
Mara, minha querida, muito obrigada! Eu sempre fico fazendo de conta que não sei que você é Papai Noel de verdade! Mas sei, sim!
E o filme? “Por causa de Papai Noel” continua ganhando prêmios. Sei que neste mês está concorrendo a dois festivais: um em Portugal, e outro em Seul, na Coréia, tendo também ganho um festival em Moscou, na Rússia – sem contar os muitos prêmios que ganhou no Brasil. E alguém ainda vai me dizer que Papai Noel não existe?

Blumenau, 14 de setembro de 2007.


Urda Alice Klueger
Escritora.



Na casa do seu Solón Campos e na casa onde dormiu o Bispo

 

Acho que Canelinha ainda não era município, quando tirávamos o tempo de lá ir passear, meu pai, minha mãe, nós crianças, semana inteira de passeio, coisas que ficaram indelevelmente gravadas nas memórias da minha vida. Antes de sair de casa a gente dizia que ia “para Tijucas”, e para Tijucas seguíamos num sacolejante ônibus do qual tenho as piores lembranças, pois sempre enjoei muito dentro de qualquer coisa que se mova e que eu não esteja dirigindo, se bem que hoje, em idade adulta, conheça remédios que existem para afastar o terrível fantasma desses enjôos.
Minha mãe havia nascido e se criado na Nova Descoberta, pequeno lugar intermediário entre Tijucas e Canelinha, onde havia a Igreja de Santo Antônio, muitos parentes e incontáveis histórias sobre os tempos em que ela lá viveu, histórias que andam a me alimentar até os dias de hoje, não importa quantos lugares do mundo conheça por aí afora! Pergunto-me neste momento se quando houve a partição dos municípios Nova Descoberta ficou pertencendo a Canelinha ou a Tijucas, se as crianças que hoje nascem ali são crianças de lá ou de cá – qualquer dia destes irei me informar. Naqueles estertores da década de 50 do século passado, no entanto, que é quando eu me lembro, minha mãe era de Nova Descoberta, de Tijucas, de Canelinha, e de um outro lugar muito mágico, que só conheci depois de adulta: Nova Trento. Tudo isto, hoje, é muito perto, poucos minutos de carro por estrada asfaltada, e fica quase incompreensível para a minha imaginação de gente grande pensar que tudo era tão longe e difícil quando eu era criança!
Hoje passo muitas vezes pela BR-101, em direção a Florianópolis, e sempre que há alguém comigo no carro, não deixo de informar, quando estou próxima das pontes gêmeas de Tijucas:
- “Vês aqueles morros azuis lá longe? Foi de lá de dentre eles que veio a minha mãe!” – pois aqueles antigos passeios às terras onde ela se criou estão fortemente acordados dentro de mim, e nunca será possível esquecer.
Eu era pequena demais para lembrar agora a ordem em que as coisas se davam, pois íamos cá e lá, e então vou contar conforme elas estão vindo ao meu coração: em algum momento, um ônibus sacolejante nos deixava numa pequenina cidade chamada Canelinha, onde tínhamos porto seguro, que era a casa do seu Solón e da Dona Patrícia Campos.
Penso que chegava muito mal, depois de tanto enjôo, e não me lembro muito bem como era chegar – mas estar lá era uma coisa fascinante! Um dia o seu Solón Campos tivera uma venda, e então sua casa era muito grande, com partes vazias onde antes funcionara o seu comércio, e havia uma série de quartos e muitas roupas de cama, e dormíamos em amplas camas de colchão de palha de milho, extremamente reconfortantes depois daquele tanto sacolejar do ônibus detestável!
Lembro outras coisas da casa, como ela tinha as altas paredes sem nenhuma pintura, prática comum naquela região naquela época – pelo menos, nas minhas lembranças, quase nenhuma casa agrícola que conheci àquela altura tinha nas paredes nuas mais que as marcas de antigos e novos líquenes! E também não havia eletricidade, pelo menos naquela casa – se bem que pode ser que a mesma faltasse muito, pois na minha cidade também, então, sempre tínhamos cortes de eletricidade – o que me lembro, no entanto, era dos candeeiros a querosene à luz do qual a Dona Patrícia Campos preparava a galinha que matara às pressas para as visitas que tinham chegado, e de como ela usava tamancos de madeira e um chapéu de palha de abas largas, mesmo de noite, para que insetos voadores não pousassem na sua cabeça! Seu Solón sentava-se e conversava e conversava, e ele e meus pais faziam projetos para os dias de passeio, mas a coisa mais impressionante de todas, com certeza, na casa do seu Solón Campos, era uma grande fotografia colorida de Getúlio Vargas, pendurada na sala, que ele, respeitosamente, explicava ser o “Pai dos Pobres”. Foi lá na casa do seu Solón Campos que eu travei meu primeiro contato com Getúlio Vargas e alguns conceitos da política brasileira, com certeza.
Seu Solón e dona Patrícia tinham um filho chamado Taurino, mas como eles já fossem velhos e Taurino já fosse adulto e andasse a tocar a sua vida, eu nunca cheguei a conhecê-lo. O que lembro bastante lá da casa do seu Solón é de um quintal cheio de cheiros verdes, chás para mezinhas, tomates e outras coisas plantadas – e da sua gloriosa carroça puxada por dois cavalos castanhos!
Era em tal carroça que saíamos a passear, naquela animada semana! Minha mãe tinha saudades da cidade de Tijucas, e então, passo a passo, os calmos cavalos puxavam a carroça até lá, e adultos e crianças íamos dentro dela, e na minha lembrança passavam-se muitas, muitas horas até que chegássemos. Tijucas tinha todo um ar diferente, já fora cidade importante, as casas eram pintadas! Não sei bem o que fazíamos na cidade de Tijucas além de matar as saudades da minha mãe – o que lembro com clareza era da imponente casa da Dona Chiquinha Galotti, e da foz do rio, que era nossa parada final. Queria saber se ainda, lá naquela foz, o rio deságua num mar de lama, e queria que alguém me explicasse aquilo! Decerto, quando olhava, era hora de maré enchente, pois ondas de lama entravam rio adentro e aquilo era muito feio e muito ruim de se olhar – depois de adulta, nunca mais fui lá para ver direito como era aquilo e por quê que um mar de lama podia se formar, assim, em algum lugar do mundo! Será que aquele mar ainda está lá do mesmo jeito? Pelo que lembro, aquele lamaçal em forma de ondas foi, provavelmente, a coisa mais feia que vi na minha mais tenra infância.
E era a partir da casa do seu Solón Campos, em Canelinha, que nos dias seguintes fazíamos mais visitas e passeios, e em algum momento nos mudávamos para Nova Descoberta (ou será que íamos lá antes?), e lá nosso abrigo era a casa do tio Adolfo e da tia Bernardinha, que eram tios da minha mãe. Dentre outros descendentes, eles eram pais da Linda e avós da Quinha, e depois de adulta estive lá diversas vezes, e elas ainda moravam na antiga casa do tio Adolfo, que fora construída toda em encaixes, sem pregos, vetusta casa do passado onde, um dia, dormira um bispo! É provável que o bispo tenha dormido lá há uns vinte ou quarenta anos antes, mas que charme ele ainda dava àquela casa! Enquanto ficávamos lá, que fascinante que era para mim dormir, com as minhas irmãs, na ampla cama onde um dia o bispo dormira! A onipresença daquele bispo que talvez até já tivesse morrido dava tal dignidade àquela casa antiga e sem pintura, como as outras casas rurais, que se tornou impossível esquecer tal fato!
E dali da casa do tio Adolfo partíamos para as outras visitas, ali pela redondeza: a comadre Carlota, mãe do Diogo, que ainda vive por lá, as visitas aos muitos Giacomossis, cuja matriarca tivera 17 filhos, e que é avó da Miriam Gilli e de tantos outros, à viúva Bissóli, mãe do Salvador e do Caetano, à Lia e à Tana, às paisagens que a minha mãe trazia escondidas dentro do peito, e que ia rever para não morrer de saudade – e lembro tantas coisas, tantas coisas de cada lugar destes, de cada casa destas, de cada cafezal, e dos pés de ingá, mais altos que os de café, e de como a Lia nos levava a um lugar que deveria ser um brejo, penso – mas que tinha ilhas flutuantes mas firmes, onde podíamos pisar sem afundar, e que ela chamava de “balsas”, e de como ela nos contava que por ali ainda havia jacarés – nunca mais, na minha vida, soube de outro lugar no Estado de Santa Catarina, onde existissem jacarés!
Então, às vezes voltávamos de tais visitas já noite fechada, escura, e era necessário ter muito cuidado para atravessar o pasto do tio Adolfo, para não esbarrar, sem querer, em alguma vaca que estivesse ali parada, a ruminar. Entre o pasto e a casa havia o jardim da Linda e da Quinha, onde, além de rosas-de-Santa-Rita e de tantas outras coisas, elas cultivavam o colorau para a galinha dos almoços de luxo. Nessa altura, o que mais lembro era de chegar, e me enrodilhar na cama onde um dia dormira o bispo, e deixar a imaginação correr à solta, pensando que um dia um bispo estivera mesmo ali...
Numa dessas idas lá, minha mãe trouxe de presente dois castiçais de faiança branca, coisa mais linda, lembrança de família, que já não lembro quem guardara para ela. Faz muitos anos que ela me deu um dos dois castiçais. Ele está em lugar de destaque, na minha casa do século XXI, a atestar que tudo aquilo existiu e aconteceu mesmo. Faz tanto tempo, e foi tão lindo, que se não fosse o castiçal, talvez eu pensasse que tivesse sido apenas um sonho...


Blumenau, 25 de Agosto de 2007.

Urda Alice Klueger
Escritora


O HOMEM DOS OLHOS DE VIDRO
(para Santin)

Foi lá na Fazenda Klabin, em 2004, que me lembro de tê-lo visto a primeira vez: a ocupação acontecera sem incidentes, e olha que era uma baita ocupação - 500 famílias e o maior latifúndio do Estado de Santa Catarina, totalmente devastado dos pinheiros que tivera um dia.
Fôramos para lá sem saber para aonde iríamos, como é de costume; soubéramos que iríamos meia hora antes de sair de casa, e aí existe aquele ritual de botar roupas escuras para ficar-se menos visível caso a polícia ou as milícias do patrão venham a atirar na gente, botar na bolsa uma garrafa d’água e algo de comer, pois nunca se sabe até onde se vai e quando se volta, e depois há que se esperar em algum ponto combinado, para que venham instruções para o telefone celular de alguém, e então se segue até o ponto seguinte e se aguarda novas instruções, e assim a noite segue. Quase já na área que continuava desconhecida, silenciosos e imóveis na escuridão de um pátio, víamos intensa movimentação de carros de polícia: alguém desconfiara de alguma coisa, alguém dera algum alerta, e então os cuidados tinham que ser redobrados para se evitar incidentes. No comando de toda a operação, o Homem dos Olhos de Vidro, que eu ainda não conhecia, mas que conhecia muito bem as rotas e os perigos, e que tinha tudo pronto para que não houvesse erros. E entre duas passagens dos carros de polícia, saímos quase que pé ante pé, e nos incorporamos, não muito distante, numa estradinha lateral, às quase 500 famílias que já estavam indo, pois havia famílias para a frente e famílias para trás, e a nós coube seguir uma kombi lotada de criancinhas que eram como libélulas batendo as asas na sua algazarra, e éramos seguidos por um caminhãozão carregando uma lona na sua carroceria – numa freada que houve, numa parada que não se sabia para que (mas decerto prevista pelo homem que tinha aqueles olhos), aquela lona se mexeu e de debaixo dela espiaram dezenas, muitas dezenas de pares de olhos de homens que estavam dispostos a qualquer coisa para defender aquelas criancinhas e a terra que decerto viria.
Meio magicamente, a polícia não nos viu, e atravessamos a BR[1] como seres invisíveis, e entramos naquele latifúndio totalmente abandonado, creio que pelas quatro horas da manhã. Já era grande o número de pessoas que lá estava; como num carreiro de formigas, não paravam de chegar outras, de todas as formas possíveis, em todos os veículos possíveis, e acho que não teve quem não engoliu um soluço ao ver o caminhão de carregar gado, de repente, entrar pelo caminho que vinha da rodovia, e dele saltarem as muitas dezenas de homens dispostos a tudo para garantir o pedacinho de chão para a sua família, neste país de tantas terras abandonadas.
E nos dispersamos a olhar aqui e ali, a ajudar aqui e ali, e fazia frio nos campos de alta altitude, e então, em algum momento, o sol começou a nascer por detrás do leste, e então houve a grande reunião de todos os que ali estavam, um grande círculo que como que recebia o sol, e numa lombadinha do campo devastado estava o Homem dos Olhos de Vidro, e foi ali que o conheci. Muita outra gente estava ali, gente de muitos lados, os que vieram para ficar e os que vieram para apoiar, e neste se incluíam os representantes de bispos, e de autoridades municipais daquela cidade que morria pelo abandono da fazenda, e tanta gente, tanta gente unida por seríssimos sonhos que o pessoal que acredita na Veja[2] dificilmente um dia conseguirá entender, e uma coisa a se pensar neste momento é se há mais gente que crê na Veja ou mais gente que crê na idéia de que um mundo melhor é possível. Como não há estatísticas, fica difícil definir tal coisa, mas eu cá, depois de muito andar por aí, tenho minhas dúvidas sobre onde está a maioria...
Voltemos ao Homem dos Olhos de Vidro, no entanto. Seus antepassados tinham sido gerados numa Europa de muita gente de olhos claros, a mesma Europa que gerara os Sem-Terras que haviam chegado à América sob o nome de Imigrantes – era de lá que os olhos transparentes daquele homem tinham vindo, e naquela manhã em que o sol nascia sobre o campo que comportaria muito mais que as 500 famílias que estavam ali, devia fazer muitas noites que ele não dormia, pois seus olhos de vidro estavam vermelhos de tanta falta de sono – não fora nada fácil, com certeza, organizar para que aquela imensa ocupação do imenso latifúndio arrasado acontecesse sem nenhum incidente, mas agora a ocupação estava feita e era o momento ritualístico da posse da terra, e deu-se voz a cada um dos que estavam ali, a cada liderança e a cada representação, e o Homem dos Olhos de Vidro Vermelho a tudo acompanhou e regeu fitando diretamente o sol que subia no céu e que devia provocar muita dor naqueles olhos tão claros – e eu admirei visceralmente a força daquele homem, a força que se expressava na transparência vermelha daqueles olhos que pareciam cristal. Nunca mais esqueci a força daquela homem, a força que se expressava tão firmemente naquele nascer do sol, na transparência vermelha dos seus olhos de vidro. Desde então, eu o tenho encontrado diversas vezes por aí, sempre nos melhores momentos. Descobri, no entanto, que há outros homens, e também outras mulheres, com olhos de outras cores, com a mesma capacidade de liderança e de organização, e a minha esperança cresceu. Há muita coisa para acontecer, por aí tudo. Um mundo melhor é possível, sim, e é isto que deixa apavorado de medo o pessoal que acredita na Veja.


Blumenau, 27 de março de 2008.


Urda Alice Klueger
Escritora


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[1] BR: como são chamadas as rodovias federais, no Brasil.
[2] Veja: revista brasileira alinhada com a extrema direita.