NO TEMPO DA BOLACHA MARIA

E os dias e as noites passaram, e nós continuávamos ouvindo a rádio sem parar. E, numa tarde, a enchente estava indo embora, e minha mãe tentava nos manter dentro de uma normalidade, sabe-se lá a custas de quais amarguras que engolia para que suas meninas não sentissem o medo que estava dentro dela. Veio a noite daquela tarde, e ela colocou a mesa como em todos os dias, e serviu sopa, que naquele tempo se tomava sopa antes das refeições. E estávamos na sopa, quando ouvimos! Lá de baixo, de antes da curva da rua, do lugar onde ainda não poderíamos avistá-lo mesmo se fosse de dia, veio o assobio do meu pai! Ele tinha um assobio que era só dele, e que sempre assobiava quando estava quase chegando em casa, para que a gente soubesse que ele estava vindo. E então todas nós largamos a sopa e as colheres, e todas corremos desesperadamente para a rua, com o coração saindo pela boca de tanta emoção, pois sabíamos que ele estava chegando!
E no meio da escuridão foi aparecendo o farol da sua bicicleta, e ele assobiou de novo! Não preciso contar como estava o meu coração! Foi naquele dia que descobri que amava meu pai!