AMADA AMÉRICA

 Meu Deus, como era bom estar no Brasil! Estávamos numa pequena cidade perdida lá na fronteira, mas ali havia de tudo: telefones públicos em profusão, limpo chão lavado, lanchonetes com a NOSSA comida, gente negra. Eu não sabia que tinha sentido tanta falta de ver gente negra, e só me dei conta quando avistei a moça que servia o balcão numa lanchonete. Meu Deus, eu era brasileira, de uma terra de gente mestiça, e passara quase todo aquele mês em países onde nunca se via uma pessoa negra. Aquilo tinha sido como que uma negação de minhas raízes, da minha cultura, mas só entendi isso quando a mocinha mulata me atendeu, e eu senti um fervoroso calor por ela, pelo que ela representava: eu, branca, ela, negra, juntas representávamos o Brasil. Creio que aquele foi o momento da minha vida onde com mais força dimensionei a importância da presença dos meus irmãos negros na formação deste meu país maravilhoso!
Morrendo de amor pelo Brasil e pelo meu povo, pedi uma coxinha de galinha e um copo de leite, e então senti que realmente tinha voltado: a coxinha tinha toda a cara de brasileira, derretia-se na boca com gosto de cebola, de alho, de pimenta!
Gosto de Brasil na boca, calor de Brasil no coração, (...) eu era perfeitamente feliz. Faltava pouco mais de trinta horas para chegar em casa!