Contato

Matérias publicadas em sites e Jornal

C
oluna FRONTE CULTURAL de Silvério da Costa

Aproveitei o periodo de festas natalinas para ler "PORTAL DO SOL NASCENTE/PORTAL DO SOL POENTE" um livro de poesias, mais um da chapecoense Anair Weirich, que traz a capa vazada, dando-lhe um toque artístico-singular, em termos de concepção literária. Uma das capas é branca com fundo vermelho e introduz uma série de poemas inéditos, inclusive alguns com tres versos, perfazendo trinta sílabas poéticas, e com o titulo aposto acima, os chamados "poetrix".
A outra capa é preta, com o fundo em branco, abrindo caminho para um conjunto de poemas já publicados em livros anteriores. As capas são de Solivan, e o prefácio assinado pelo escritor Pedro Albeirice. Há, ainda, os comentários de Alcides Buss e Marilda Confortin. O cenário completa-se com as ilustrações de Diego Coser e Taís Antonietti.
Trata-se de um livro que reune poesias em forma de devaneio, que tem como núcleo temático, fatos do dia a dia, muitos deles subordinados ao erótico, dos quais despontam imagens (fanopeia) incríveis, concebidas com o fito de instigar o leitor. A poesia de Anair é revigorada por uma linguagem simplificada mas atual, que tem a capacidade de surpreender, sempre, dado o conluio existente que se desdobra nas entrelinhas entre ela, a linguagem, e ela, a autora.
A poeta passeia, também, pelas vertentes da existencialidade, mostrando a sua versatilidade e poder de síntese, mormente na elaboração dos "poetrix", gênero poético do qual tem se mostrado uma cultivadora inveterada.
Enfim, trata-se de uma poesia andarilha, já que muito dela é calcada em fatos observados enquanto viandante por este mundo afora e/ou em contato com o povo que cruza seu caminho. Vejamos, então, alguns dos seus trabalhos:


AÇAÍ NA TIGELA

Essa aí que tu vês...
No ato consumado,
de fato no pecado
e oferecida como só ela,
não é fruta rara
mas é gostosa
e bem cara!
Todos querem comer
essa aí na tijela!

COROA

Tinha bafo de mofo.
Mas na careca luzia
o que tilintava no bolso.


ECOS DA ECOLOGIA

Amo a árvore imponente,
com seu abraço forte e quente,
de plantão à beira da estrada.

Amo seu viver solitário,
seu olhar sobre o cenário,
e sua verde folharada.


FASCINAÇÃO

Chá de chamuscada,
pelo teu fogo hospitaleiro.
Chá de chá verde,
que forneces no chimarrão.
Chá de chama azul,
cor do céu dos pioneiros,
chá de pura emoção!
Chá de chave que tudo abre,
chave esta que é uma só.
Chá de charada decifrada,
chá de chance dourada,
chá da minha amada
Chapecó!


A vendedora de livros
Anair Weirich conta sobre sua carreira e como aprendeu a amar os livros e fazer deles o principal sustento


Alice Dionizio

O cheiro de café é forte. Parece bom. Jornalistas, geralmente, gostam de café forte. Eu gosto de café forte, apesar de não ser jornalista... ainda! Sou estudante de jornalismo. O ambiente inspira tranquilidade, apesar de todo nervosismo. Entrevistar pessoas é realmente uma situação interessante. Mexe com os nervos de qualquer um.
Minha entrevistada, Anair Weirich, é uma escritora de Chapecó. Eu a escolhi porque gosto de literatura, gosto das letras. Ela teve seu contato direto com a literatura depois de adulta, e vislumbrou nela uma forma de mudança. A literatura transforma pessoas, realiza sonhos.
A escritora chapecoense, além de escrever, vende seus livros. Com a poesia na ponta da língua, conquista seus clientes. Como não se render ao ouvir alguém narrar seus sentimentos, transcritos em poesia? Ah, essa tal literatura! Anair é guerreira. Mesmo sem apoio, tem travado lutas para vender seus livros.
Como ela conseguiu? Ela irá narrar isso na sua autobiografia que ela está escrevendo. Com todas as mazelas que a acompanham nessa luta diária, ela encontrou a resposta de como conseguir. Conseguiu viver dos livros que ela mesmo escreveu.

 

A(L)TITUDE

TOPAS ir ao TOPO?
mas tem que ser
ESCOLADO
em ESCALAR...

Tem que ter TENACIDADE
como ESCOPO.
NINGUÉM chega ao TOPO
sem SUAR!

(Anair Weirich)

A principal pergunta:

Alice Dionizio: Como surgiu a paixão pela literatura? Foi na infância ou foi depois de adulta?

Anair Weirich: Depois de adulta. Eu fui casada 15 anos com um alcoólatra. E nesse tempo eu não podia falar, me manifestar, rir. Eu era muito repreendida, ele me podava. Mas isso ia contra a minha natureza, eu sou uma pessoa expansiva e comunicativa. E depois que eu me separei, até mesmo a folha de uma árvore que se mexia era vida, era bonito. Aliada a isso, eu sentia uma necessidade enorme de colocar para fora o que eu estava sentindo e não sabia como dizer. Comecei a escrever uma coisinha aqui, outra ali, minha família foi encontrando e foram gostando. Depois começou a sair em jornais, no rádio. Em 1987 participei da minha primeira antologia. Durante nove anos meu trabalho saiu nessas antologias da Ache e em outras do Brasil todo. Meu primeiro livro individual saiu em 1995. Em 1996 fiz minha primeira viagem com ele. Realizei meu sonho porque consegui patrocínio da Pierre Alexander, quando enviei a eles minha primeira poesia “Eu sou assim”, para avaliação.

Alice: Você vendia os cosméticos da Pierre Alexander?

Anair: Sim, e foi ela que patrocinou o começo de tudo. Eu estava olhando uma revista e percebi que eles patrocinavam muita coisa e tentei. Mandei a poesia “Eu sou assim” e eles aceitaram.

Alice: Há em Chapecó a Associação dos Escritores Chapecoenses (Ache), ela é a responsável por esses cartazes com poesias nos ônibus em pontos estratégicos da cidade. Como é a sua relação com a Associação? Você faz parte. Vocês se reúnem semanalmente, como é?

Anair: Fui presidente duas vezes, esse projeto saiu durante a minha gestão. Nos reunimos na primeira sexta-feira do mês.. A Ache vai fazer 27 anos em 2013 e somente agora temos uma sala para as nossas reuniões. Sala que foi concedida pelo atual prefeito. Essa Associação é minha vida, sou uma das fundadoras. Só não estou na ata de criação, mas estava presente na primeira Antologia.

Alice: Pesquisando eu percebi que você não vende só os seus livros, mas também livros de outros autores, é isso?

Anair:
Sim, meu marido é que vende e nós somos muito parceiros. Ele é representante de autores catarinenses. E não só catarinenses, como autores do Rio Grande do Sul e Paraná. Alguém tem que se doer por essa gente. Tem muito café no bule por ai, gente boa escondida nas gavetas e nos armários. E isso acontece porque as pessoas que vão até as livrarias vão pedir o que a mídia vende. Você sabe como um livro fica “o mais vendido”? Os grandes meios de comunicação começam a dizer que determinado livro é o mais vendido ele acaba se tornando mesmo. É tudo manipulado...

Alice: Você participa com frequência de concursos culturais?

Anair:
Bastante. Participo de concursos de poesia em antologias. Esse livro, por exemplo (Anair me mostra o livro e permite que eu o folheie): fui classificada e recebi menção honrosa Como resultado, meu trabalho foi publicado no livro. Só entraram os três trabalhos vencedores e quem recebeu menção honrosa.

Alice: Há uma apresentação da escritora Urda Alice, a escritora catarinense com mais livros no vestibular, no seu livro “Poesias do Cotidiano” de 1997. Como é sua relação com ela?

Anair:
Meu marido vende os livros da Urda. Nossa amizade é de longa data e também por isso nos convivemos com ela. A Urda é um exemplo para citar. Infelizmente muitas pessoas não conhecem o trabalho dela, até mesmo pessoas da cidade onde ela nasceu. Muitos não sabem quem ela é e o que representa para a literatura catarinense. Não é de doer o coração? É muito triste. Mas ela é estupenda. Tenho uma gata que se chama Alice, em homenagem a ela.

Alice: Você tem um livro de prosa e até livros de mensagens, que seguem uma linha mais de autoajuda. Mas a poesia é sua paixão...

Anair: Sim, a poesia é o amor da minha vida, minha grande paixão. Eu sou louca por poesia. Se você me der trela eu esqueço que tenho que trabalhar, porque a poesia, mesmo em meio a situação complicadas e adversas, está aqui comigo. Mesmo quando estou com outras preocupações ela não me abandona.

Alice: Avaliando a sua trajetória podemos dizer que você consegue viver da venda dos seus livros. Mas como ficam as dificuldades? Quando você vai para as outras cidades é sempre bem recebida? Qual é a sua tática para “quebrar o gelo”?

Anair: Eu demorei para aprender. Uma vez eu imaginavas que não era possível viver da venda de livros. Quando comecei, eu dava as minhas antologias. Eu pagava para participar, pagava a minha página, e dava os livros. Eu achava que era impossível alguém vender um livro. Eu descobri em Videira o segredo de vender um livro de maneira mais fácil. Não sou daquelas que empurra uma venda “goela a baixo”. Nesse dia um empresário me perguntou como eu iria vender um livro meu sem ao menos lhe dizer uma das minhas poesias. Quando eu disse a poesia o olho dele brilhou, marejou. E eu pensei “Eureca! É por aqui”.

Alice: Os livros de mensagem, de autoajuda, são os que te dão um retorno financeiro maior. Mas e a poeisa?

Anair: A poesia é para os eleitos, para quem ama esse estilo de arte literária. A literatura motivacional agora é chamada de “empreendedorismo”. É uma forma de burlar a palavra “autoajuda”. Aquela poesia aí acima foi adotada por um curso de empreendedorismo no Paraná... Mas eu sou muito grata aos outros livros, por exemplo, o “Livro Lúdico das Cores”, esse que eu vendo bastante em empresas. Ele é o que mais eu vendo e que eu não posso ficar sem nunca.

Alice: Você está escrevendo uma autobiografia?

Anair: Sim. No ínício, ela ia se chamar “Como conseguir”, uma forma de homenagear minha mãe. Antes de falecer ela me disse “Filha, teu sonho é o meu sonho. Mas como você vai fazer pra conseguir? O povo quase não lê, como você vai viver de livros?”. Quando comecei a escrevê-lo, há dezesseis anos, eu já sabia o final. Ele seria assim “Mãe, não se preocupe mais, eu consegui. Eu consegui”. Mas por esse título revelar um tom de autoajuda, o que os críticos adoram “cair em cima”, resolvi mudar. Ele se chamará “Mazelas de uma vendedora de livros”, mas com a escrita diferente. Ficará assim : “mazelas de umA Vendedora de Livros”. Na verdade eu sou uma vendedora de livros, se eu não vendesse não adiantaria de nada escrever. Tem tanto escritor bom por aí, e os livros deles estão estocados em gavetas e armários, porque não sabem praticar essa arte.

Alice: Agora para terminar, e deixar você em paz (risos), gostaria de lhe fazer uma pergunta mais pessoal. Eu, a Alice que ama literatura, acredita no poder de transformação das pessoas através das letras. E você...

Anair: Eu acredito!... A transformação das pessoas pode ocorrer pelas letras, sim. Eu tenho uma poesia nova infantil que fala disso, mas que pena, não lembro dela agora.

Alice: Há uma que eu li e me chamou muito a atenção. É a história de um menininho que queria voar e conversa com o passarinho...

Anair:
Ah, sim. (Nesse momento a escritora passa a ser declamadora da sua própria poesia)

- Passarinho, passarinho!
Eu também queria voar
E conhecer outros mundos...
Mas não tenho asas, nem dinheiro.

-Menininho, menininho!
Você deixe de bobagem.
Quem lê viaja ao mundo inteiro,
Sem ter que pagar passagem.


(A emoção de ler, Anair Weirich)




Apresentando ANAIR WEIRICH

QUEM É A SACOLEIRA DOS SONHOS
por Marilda Confortin


Durante a infância pobre no interior de Santa Catarina, no início da década de sessenta, Anair Weirich, já encarava os palcos improvisados nas escolas e no coreto da praça recitando poemas nas datas comemorativas da pequena cidade de Chapecó.

Na adolescência, mesmo sem nunca ter assistido a um show, já que não tinha televisão em sua casa, a loirinha Anair, se vestia de Wanderléia e divertia os amigos, cantando “...Essa é uma prova de fogo, você vai dizer se gosta de mim”.

A desinibição, a vocação artística, o gosto pela poesia, a alegria e a habilidade com as palavras, foram completamente abafadas na fase adulta, ao casar-se com um homem que não permitia que sua esposa, “exibisse suas emoções por aí”. Por muito tempo, desempenhou o papel da mulher submissa que só servia para lavar roupas, criar filhos, aceitar as bebedeiras e maus tratos do marido, ser traída e sufocar todos os seus sonhos e sentimentos.

Um dia, encorajou-se e interrompeu o caminho do suicídio. Pegou seus dois filhos e abandonou a casa. Começou tudo de novo. Para sustentar a família, passou a vender produtos de beleza e potinhos de plástico de casa em casa. Para conquistar as clientes, Anair recitava poesias de amor e motivacionais.

Como a estratégia de venda estava dando certo, a empresa de perfumaria patrocinou seu primeiro livro de poesias. Com o lucro, Anair produziu mais um livro, depois outro e mais outro.

Naquele tempo, os textos de auto-ajuda ainda não estavam em moda. Mas, a história da Anair e sua determinação em sobreviver da poesia, por si só já era uma poesia motivacional. A clientela feminina daquela época, composta na maioria por donas de casa, adorava seus textos eróticos, seus poemas de amor em linguagem simples e coloquial e suas mensagens que elevavam a auto-estima feminina. Percebendo esse mercado, Anair deixou de oferecer produtos que embelezavam só o rosto. Passou a oferecer produtos que embelezavam principalmente a alma. Além dos livros, produziu artesanalmente vários tipos de recipientes que continham poesias e mensagens motivacionais em seu interior. Verdadeiros mimos como por exemplo: potinhos de vidro decorados, caixinhas de fósforo, cestinhos de poesia, livrinhos em formato de pacote de presente, etc.


LIMIAR DO TEMPO

“Amar é...
Te encontrar, como agora.
Só que na velhice, de bengala,
E ainda assim, sentir a mesma emoção
Que estou sentindo nessa hora!

Colocava tudo em sua enorme mala, pegava um ônibus e viajava pelo sul do Brasil, vendendo seus produtos poéticos de porta em porta. No retorno, trazia muitos livros usados que ganhava, comprava ou trocava pelos seus.

Casou-se novamente e Cláudio passou ajudá-la, incentivando-a como escritora e até investiu no negócio, abrindo um sebo chamado Panacéia, que atualmente é gerenciado pela filha Deny. A palavra uniu a família novamente.

Com uma ajudinha de um famoso apresentador de televisão, Anair ficou conhecida como “sacoleira dos sonhos” por percorrer diariamente as estradas do sul do Brasil recitando poesias e oferecendo livros em escolas, creches, teatros, universidades, postos de gasolina, livrarias, papelarias, banquinhas, mercados, açougues, fila de banco, fila de ônibus e onde lhe desse na telha.

Essa mulher já publicou 23 livros, tem outros cinco no prelo, participou de mais de 20 antologias, seu pequenino livro “Mensagens para um dia melhor” vendeu mais de 80 mil exemplares que somados aos demais livros de sua autoria, atinge a fabulosa marca de cento e cinqüenta mil exemplares vendidos de porta em porta por esse Brasil afora.

Tinha tudo para dar errado: pobreza, descriminação, falta de oportunidade de estudo, solidão, abandono, mas ela deu a volta por cima. Perguntei à Anair:


PC- Afinal, você abriu os olhos e encarou a vida, ou você fechou os olhos e mergulhou? Ela me respondeu assim:

AW- Bom, eu mergulhei de olhos fechados, confiando no instinto. Quando voltei à superfície, abri meus olhos, respirei fundo e percebi que queria mergulhar outra vez. Gostei de viver perigosamente.

PC- Você escreve livros que valorizam o otimismo, a perseverança, a esperança. Você se considera uma escritora de auto-ajuda? Como você encara as críticas dos que dizem que auto-ajuda não é poesia?

AW - Eu divido minha literatura assim: Tenho os livros do coração, que escrevo por puro prazer. São os livros de poesia. Esses não vendem quase nada porque as pessoas preferem ler romances e auto ajuda. E tenho os livros que dão o sustento do corpo e da alma, que são os motivacionais. Amo a poesia mas sou muito grata aos meus livros de mensagens, pois eles sustentam minha família, fazem bem às pessoas e eu me emociono cada vez que alguém me diz o quanto eles lhe fazem bem.

LEMA DE VIDA

Topas ir ao topo?
Mas tem que ser
Escolado em escalar!
Tem que ter tenacidade
Como escopo...
Ninguém chega ao topo
Sem suar!

 


PC- A emocionante história da Anair, está registrada no livro “Como consegui” que logo, logo estará nas bancas. Li uma primeira versão e lembro de uma história onde você foi confundida com uma vendedora de livros e pediram para você se retirar do local. Isso continua acontecendo? Como você reage?

AW- Esse livro mudou de título. Agora chama-se: A VENDEDORA DE LIVROS. Na verdade é o que eu sou: Uma vendedora de livros. Assumi. Ser a própria autora ajuda, mas o que adianta ser autora, se não consigo vender? Por isso, me tornei uma boa vendedora. Resisti muito à esse título, mas acabei aceitando. Minha estratégia e minha arma de sedução são os diferenciais: Ao oferecer meus livros, eu recito uma poesia. Quando os olhos brilham emocionados, eu sei que conquistei meu cliente e plantei a semente da leitura. É claro que tem muito coração duro, que não se comove com nada.
Outro diferencial que conquista em meus livros, são os marcadores de páginas ecológicos, que se transformam em bijuterias de pescoço artesanais, feitos pelo meu marido. E também perfumo meus livros com óleo de rosas. É uma delícia ver como eles se surpreendem e cheiram, cheiram e cheiram! Esses atrativos conquistam o público e tornam meu trabalho mais emocionante, um delicioso desafio.
Em SC eu represento autores catarinenses, mas, vendo em maior quantidade mesmo os meus livros, pois as pessoas se sensibilizam ao ver o próprio autor oferecendo seu produto. Cria um laço entre o escritor e o leitor. E olhe que tem muito café no bule escondido em gavetas e armários, é de cortar o coração. Eu ofereço, faço minha parte, mas..., tenho pena desses autores que não sabem vender e nem têm uma editora ou distribuidora trabalhando por eles. Deveria existir um incentivo bem maior por parte do governo para os pequenos autores. É dolorido chegar nas bibliotecas e livrarias e ver um percentual bem maior de livros estrangeiros ou que a grande mídia promove, na maioria traduções, enquanto os escritores locais ficam cada vez mais anônimos. Deveria existir uma cooperativa de pequenos autores e uma mídia que os promovesse. Os vendedores acham bem mais fácil oferecer o que já está bem divulgado, que não precisa de convencimento. Eles não se dão ao trabalho de ler para saber do que se trata o livro.

PC- Anair teve um livro inteiro que foi “pirateado”. Ela conta como isso aconteceu:

AW - Foi assim: No ano 2000, mandei imprimir numa gráfica do Rio Grande do Sul, dez mil exemplares do meu livro “Mensagem para um dia melhor”. A gráfica entregou-se a encomenda e imprimiu por conta, sem a minha autorização, mais uma quantidade que não consegui determinar e colocou nas livrarias por um preço bem menor do que eu paguei para imprimir. Abri um processo contra a gráfica. Mas na hora de testemunhar a meu favor, os próprios livreiros que me avisaram que isso estava acontecendo, caíram fora, argumentando que não poderiam deixar suas livrarias para ir testemunhar, que teriam despesas de viagem, alimentação e hospedagem, que não queriam se expor, que eles já tinham feito muito em me avisar. E a corda arrebentou do lado mais fraco: o meu.
Mas em tudo se tira uma lição. Se essa gráfica não tivesse feito isso, eu não teria criado o “Livro Lúdico das Cores”. Foi um livro gerado na hora da raiva, da indignação. Eu sabia que tinha que criar algo diferente. Hoje é o carro chefe dos meus livros. Cada vez que o pego nas mãos, um sentimento de gratidão muito grande me invade, pois é dele que vem tudo que precisamos e permite que possamos viajar e conhecer tantos lugares diferentes daqui do sul, enquanto trabalhamos.

PC- A escritora Anair ministra palestras, oficinas e recitais em escolas. Sua poesia infantil é muito bem aceita nesse meio:


PACIÊNCIA

Quem já viu algo funcionar
aos tapas e empurrões?
Nada mesmo dá certo,
quando é feito aos trambolhões!

Mas, se formos com jeitinho,
(como diz sempre a ciência...)
com amor e com carinho
tudo conseguiremos!

- Isso se chama PACIENCIA!

(do livro infantil Doce Jeito de Ser Criança)


A EMOÇÃO DE LER

- Passarinho, passarinho!
Eu também queria voar
E conhecer outros mundos...
Mas não tenho asas, nem dinheiro.

-Menininho, menininho!
Você deixe de bobagem.
Quem lê viaja ao mundo inteiro,
Sem ter que pagar passagem.

 

PC- Falando sobre a literatura catarinense, Anair desabafou:

AW- Falta incentivo, sim, e muito! Existe uma lei chamada Cocali, que está só no papel, e quando funciona, é pra meia dúzia de uma panelinha que existe na capital.
Tem muita gente boa na nossa terra. A Urda Alice Klüeger, por exemplo, historiadora e romancista, é a escritora de maior projeção de SC, teve muitos livros adotados para o vestibular catarinense e paulista e mesmo assim, em algumas escolas os professores dizem que nunca leram nada dela.
Tem o Norberto Pontel, de Planalto SC, que é um romancista cujos temas são os “sem terra”. São romances que mostram como é o lado de lá, cheios de emoção. Pontel é tão bom no que escreve, que até eu, que condeno invasões de terra, acabo me comovendo com a vida e a história dessa gente.
Tem o Afonso Martini, que escreveu A FAVELA ENCANTADA, eleito o “Romance do Ano 2008” pela Academia Catarinense de Letras.
O Miguel Russowsky, de Joaçaba, é o sonetista mais premiado do Brasil, mas poucas pessoas sabem disso.
Eu fico indignada com a falta de divulgação dos autores catarinenses! Mas também vibro de alegria, quando algo acontece de bom.. Um prêmio ou uma homenagem são comemorados com festa! E choro quando perdemos alguns deles, como o Reinaldo Corona, poeta de Chapecó, e o Miguel, citado à pouco.

 

AMIGOS

Amigos vêm e vão.
Amigos são uma nação
de corações leais.
Amigos são demais!
Amigos são trigos ao sol.
São cama e lençol
para deitar-se tranqüilo.
Amigos são aquilo
de tudo o que contas.
Amigos são contas
de um colar de diamantes.
São vogais e consoantes
do alfabeto do amor.
Amigos são abrigos
da maldade e da dor.
São a segurança das pontes,
e a água das fontes!
Amigos são artigos de luxo.
Amigos são bruxos
da distância e do tempo.
Amigos são o elemento
que conta na hora H...
Amigos são maná!
São faróis no nevoeiro.
São arco e arqueiro
na precisão do alvo.
Amigos estão a salvo
das tempestades da vida.
Amigos são guarida
nas horas incautas.
Amigos são flautas
que anunciam companheirismo.
Amigos são o muro seguro
que nos protege do abismo.

(Do livro Melodias do Coração 2008)


Para conhecer mais sobre Anair Weirich, comprar seus livros ou fazer contato, acesse o site: www.literaturacatarinense.com.br e seu blog: http://anairweirich.blogspot.com/

Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).


Postado às 00:30 |
Artigos Relacionados
5 comentários:

NEIDA ROCHA disse...
Querida Anair...
És uma batalhadora.
Admiro tua garra.
Venha tomar um café comigo em Canoas/RS.
Neida Rocha
(Escritora e Poetisa)
3 de maio de 2010 18:56

Altair de Oliveira disse...
Marilda, é muito muito interessante esta tua matéria! Esta poeta Anair deve ser uma figurinha e tanto! Uma grande guerreira que, com criatividade, perseverança e poesia vai empurrando a nave da vida! E parece que ela faz um trabalho valioso para a formação de leitores por onde passa, que benza-a Deus! Parabéns, Anair! Quem tem emoção bonita tem que mostrar mesmo, ué!!!
3 de maio de 2010 18:56

marilda disse...
Sim, a Anair é uma guerreira. Admiro-a como pessoa e como escritora. As vezes, me canso de ir a uma escola da periferia da minha cidade para falar sobre poesia e fico com raiva quando me criticam... daí penso nela que faz isso todos os dias, percorrendo todo o sul do Brasil, recebendo criticas, nem sempre sendo bem recebida.
Devemos muito à esses escritores que lavram pessoalmente o duro solo da palavra e plantam a semente da leitura.
4 de maio de 2010 16:31

Rosana disse...
Quando ouço como é difícil entender poesia, gostaria de ter almas como a de Anair, ao meu lado e apresentá-la, heis poesia.
Parabéns, Altair e Marilda por dividir esta prosa em versos conosco -,leitores.
8 de maio de 2010 20:26

Marilda Confortin
http://www.iscapoetica.blogspot.com

http://revistacontemporartes.blogspot.com/2010/05/apresentando-anair-weirich.html


Conheça Anair Weirich - Uma escritora que sabe fazer sucesso estrada afora vendendo seus livros de porta em porta
Anair Weirich é uma guerreira. Há mais de quinze anos na estrada, ela tornou-se bastante conhecida em Santa Catarina pela sua incansável rotina de viagens pelo estado comercializando livros - tanto seus quanto de colegas escritores. Participante de inúmeras feiras, divulgadora da cultura literária catarinense, Anair, abaixo, fala um pouco sobre sua vida, suas estratégias para venda de suas obras, suas dívidas nas gráficas, suas andanças e histórias....

*Nome: Anair Weirich

*Data e local de nascimento: 02-11-51 - Chapecó - SC

*Fale um pouco de sua vida e carreira. A poesia é a grande paixão da minha vida. Prosa é complemento, mensagem é complemento... E a única coisa que nunca deixo de pedir a Deus todas as noites, é saúde, por que sem ela eu não poderia andar tudo que ando o dia todo, visitando escolas, empresas e livrarias, vendendo meus livros, e quando estou de carro com meu marido, vendendo os livros de autores da terra também...

*Como é ser uma escritora praticamente independente hoje no sul do Brasil? É viver endividada em gráficas. Estou sempre devendo, mas estou sempre mandando fazer. E ver um olhar brilhando quando alguém ouve ou lê minha poesia, para mim, é mais pagamento do que o dinheiro que me dão pelo livro. Mas acabo de passar pela experiencia de ter um livro saído por editora. Gostei porque meu nome foi pra mais de 8.000 endereços, junto com o convite. E gostei porque a Hemisfério Sul é um nome respeitável, e porque minha amiga Urda, sua proprietária, - ela é a autora mais conhecida de SC- é uma pessoa maravilhosa e fizemos uma ótima parceria.

*O que lhe levou a viajar tanto para vender seus livros? Depois de nove anos, meu primeiro livro saiu - 1995 - e o que poderia vender na minha cidade, já tinha vendido. O que faria com o resto? Meu marido, - grande incentivador do meu trabalho - sugeriu viajar e vender, dando palestras em escolas e eventos. E deu certo, mais do que certo. Cada carta que recebo dos meus leitores, é um incentivo para continuar. Tudo tem sido muito incentivador.

*Conte algumas histórias marcantes que você já viveu na estrada ou em cidades que esteve? Foram tantas... tantas. Bom, numa viagem de volta de Laranjeiras do Sul PR, para Chapecó, eu vi que o cobrardor olhava muito para mim, mas esqueci disso e adormeci. Quando cheguei, ele disse: Moça... a renda preta da tua calcinha vermelha está aparecendo....e não é que meu zíper estava aberto o tempo todo, enquanto eu dormia?

*Como é a recepção das pessoas em geral? Já ouvi pessoas falando mal e considerando “coitados” aqueles que vendem livros porta a porta. O que acha disso? Os cultos, me recebem bem, e me incentivam e compram. Os que não tem cultura, me recebem com a cara amarrada e eu quebro o gelo. Esse é o desafio que mais gosto. Eu recito uma poesia, derreto o gelo e geralmente compram. E nunca enfiei um livro goela abaixo nesses 14 anos.

*Como você vê a literatura hoje aqui no sul? É difícil, mas quanto mais difícil, mais gosto. Tudo que é fácil não tem graça.

*Você tem estratégias especiais para vender seus livros? Marcadores ecológicos, por exemplo. Fale um pouco sobre isso. De novo meu marido entra na história. Ele tira o invólucro das sementes das árvores de Jacarandá Mimoso, lixa, fura, pinta e monta marcadores ecológicos que viram colar de pescoço. E também ele perfuma meus livros com óleo puro de rosas, que custa quatrocentos reais o litro. Ele pega um conta gostas e perfuma de um em um. Quero que cada um, ao ver meu nome nos livros, lembrem do cheiro de rosas...

*Você vende livros de outros escritores também? Como isso funciona? Eles lhe procuram e lhe dão seus livros para que você faça as vendas? Qual a sua percentagem de ganho por livro vendido? Bom, só levo autores da terra, quando vou em algum evento ou estou de carro, com meu marido. Quando estou de onibus, não dá... Mas é um acervo flutuante, um dia acaba um, outro dia nasce outro. Alguém tem que se doer pelos autores regionais. Tem muito café no bule escondido em armários e gavetas.

*Você tem um sebo também? Tem funcionários trabalhando pra você ou você consegue trabalhar nele de vez em quando, já que muito viaja? Não, o Sebo meu marido e eu demos pra nossa filha de 21 anos, estudante de biologia. A família toda é apaixonada por livros. E quando eu não aguentar mais viajar, quero o meu Sebo, pra estar no meu habitat natural.

*Quantos livros em media você vende de cada novo livro que publica? O "Mensagens para um dia melhor", vendi em torno de duzentos mil de 1999 pra cá, e o Livro Ludico das cores, por se tratar de um livro diferente, vai ser minha aposentadoria, nunca mais posso ficar sem ele. O meu primeiro de poesia, vendi oito mil, mil ex. cada edição. Alguns outros, eu fiz menos. E amo criança e poesia infantil, amo meeeesmo!

*200.000 (duzentos mil) livros em 11 anos? Isso é possível para um autor independente? Calculando por cima, para que isso aconteça, (4015 dias em 11 anos) é necessário que você tenha vendido 50 livros por dia aproximadamente, o que também lhe daria muito dinheiro, a ponto de poder viver só de literatura - o que você diz nesta mesma entrevista que não dá. Seu cálculo está realmente certo? Em que você se baseia para dar este número? Tá, vamos lá: É que quando ele nasceu, - o Mensagens para um dia melhor, - em 99, foi no auge da venda desse estilo de livrinhos. Hoje já não se vende tanto. Tinha escolas e prefeituras, nos primeiros anos, que eu vendia 200, 300 ou até mais por dia, para o dia do Professor, para festas de final de ano, para escolas que davam presentes nos aniversários, e assim, na quantia, eu ganhava na média de um real cada livro. Quando vendia avulso, em eventos tipo feira de livros e palestras, minha margem era maior. Foi quando uma gráfica, de Erechim, me passou a perna. Eles me convenceram a passar a imprimir com eles, e então, em vez de executar a minha edição de 10.000 ex., eles executaram muuuuuuuuuuito mais e ficaram com os livros. E de lá pra cá a venda foi caindo, caindo, por causa da competitividade que a própria gráfica criou, coletando material da internet ou editando material sem pagar direitos autoriais de outros autores. Enfim, é um número estimativo, o que nos deu, nesses anos de boas vendas, um carro, - que hoje está bem judiadinho, pois fomos trocando, na medida em que fomos nos apertando. e também móveis novos e outras coisas mais. E depois, eu ganhava bem, mas gastava bem. Nunca liguei pra luxo, mas conforto, nas minhas viagens, é fundamental, pra que no outro dia esteja disposta para andar o dia todo ou fazer palestras o dia todo. Há também os hotéis, as passagens de ônibus, e eu, por mais que coma pouco, gosto de comer bem, sou um pouco chata. E tenho mania de comprar presentes pra todo mundo, sou muito perdulária - rss. Mas mesmo assim, garanto pra você, a gente se aperta e muito. Vivo atolada na gráfica, pois cada livro que executam, fico devendo em média de sete a dez mil exemplares, e eles me dão pouco prazo. E de uns anos pra cá, sempre tenho comigo de tres a cinco títulos diferentes. Enfim, pode colocar aí uma quantia bem menor, se quiser, pois mais que um já me questionou, e embora o número seja mais ou menos isso, não quero encrencas com o leão.


*Usa o dinheiro que consegue ganhar para investir num próximo e em alguma outra coisa ou sobra suficiente para que consiga fazer boas economias?
Autor independente nunca tem dinheiro sobrando, tá sempre devendo. Mas temos nossa casa e nosso carrinho. E trabalho há quatorze anos em um livro que é minha auto biografia, desde que comecei a viajar, vivendo de livros na região Sul. Tive que trocar o titulo, porque qualquer coisa que lembre motivação é malhado pela crítica... se bem que que críticos não são críticos, são só cretinos.

*De tudo que já escreveu, o que você gosta mais? Qual seu livro ou texto melhor na sua opinião, que sempre gosta de vender e até oferece com mais brilho nos olhos? É o que citei antes, o Livro ludico das cores. Tem que entrar no meu site pra conhecer. www.literaturacatarinense.com.br/nair

*Você é uma escritora ativa, feliz e bastante apaixonada pelo que faz. Você se preocupa com o reconhecimento ou busca sucesso nacional? Se sim, acha que isso é possível? Nem tô com fama, isso é vaidade, só quero fazer o que gosto e pronto.

*Deseja dizer mais alguma coisa ou deixar alguma mensagem? Que adoro ler e leio de tudo. Acabo de ler o livro de Fernando Morais, O Mago. Cara... mago é - o Fernando - ele, que conseguiu contar com elegancia todas as barbaridades do Paulo Coelho. Eu jamais imaginaria que foi o Paulo que meteu o Raul Seixas nas drogas.

E baseada na minha experiencia pessoal de luta, quero deixar um recado bem meu:

É DO QUERER ARDENTE QUE NASCE A CONQUISTA DA VITÓRIA.

Muito obrigada pela oportunidade, gente boa!

Fonte:
www.escritoresdosul.com.br